A Política - Segundo André Comte-Sponville (segunda parte)
Não temos razão de ver a política como uma actividade subalterna ou desprezivel. É o contrário que é verdade: Ocuparmo-nos da vida comum, dos problemas comuns, do destino comum é um dever essencial, para todo o ser humano e ninguém não se poderá isentar. Vais tu deixar o campo livre aos fascistas, aos racistas, aos demagogos? Vais tu deixar os burocratas decidir no teu lugar? Vais tu deixar que os tecnocratas ou carreiristas te imponham uma sociedade à sua conveniência? De que direito, então, te podes queixar de tudo o que vai mal? Como, se tu não fazes o teu dever para o impedir, não serás cúmplice do medíocre ou do pior? A inacção não é uma desculpa. A incompetência não o é também. Não fazer política, é renunciar a uma parte do nosso poder, o que é sempre perigoso, mas também a uma parte das nossas responsabilidades, o que é sempre condenável. O anti-político é um erro e uma falta; é ir contra aos nossos interesses e contra aos nossos deveres.
Há quem diga que no lugar da política se deve praticar a moral, a solidariedade ou a generosidade. É querer contar histórias quem assim pensa; é querer enganar os outros ou enganarem-se eles mesmos. Certo que a moral é necessária mas não podemos reduzir a política à moral. Se a moral reinasse, não tínhamos necessidade de polícia, de leis, de tribunais, do exército: não tínhamos necessidade de Estado nem de política. Contar com a moral para vencer a miséria ou a exclusão é viver na ilusão. Contar com o humanitário para fazer política estrangeira, de caridade para fazer política social e mesmo sobre o anti-racismo para fazer política de emigração é contar histórias que nada têm a ver com a realidade.
A moral não tem fronteiras; a política, sim. A moral não tem pátria; a política sim. A moral não defende os interesses de um país ou de um continente. A moral apenas conhece os indivíduos; a moral só conhece a humanidade, enquanto que a política, seja de direita ou de esquerda, serve para defender o povo, ou os povos, em particular- não contra a humanidade,que seria imoral e suicidário, mas no entanto em prioridade, o que a moral não saberá impor nem interdire absolutamente.
Poderemos preferir que a moral é suficiente, que o humanitário é suficiente: poderemos preferir não ter
necessidade de política mas será nos enganarmos sobre a história e mentir a nós próprios.
A política não é o contrário do egoísmo ( o que acontece com a moral), mas a sua expressão colectiva e conflituosa: trata-se de sermos egoístas colectivamente, pois é esse o nosso interesse, e o mais eficaz possível. Como? Em organizando convergências de interesses, o que se chama solidariedade (diferente da generosidade, que supõe ao contrário o desinteresse). Esta diferença é muitas vezes desconhecida; razão de mais para insistir. Ser solidário, é defender os interesses de outros, certo, mas porque eles são também - directamente ou indirectamente - os nossos. Agindo por eles estamos agindo por nós: porque temos os mesmos inimigos ou os mesmos interesses, porque somos expostos aos mesmos perigos e aos mesmos ataques.
Não basta esperar a justiça, a páz, a liberdade, a prosperidade... É necessário agir para as defender, para as fazer avançar, o que não se pode fazer com eficácia se não formos numerosos,e passa necessariamente pela política.
Quelha Funda
terça-feira, 15 de setembro de 2009
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